Afirmando o heroico presente para todas nós




Paira no imaginário social a ideia de que a transexualidade é sinônimo de exuberância, alguns chegam até a exagerar, imaginam as transexuais como seres com uma superabundância de exuberância. Seios fartos, quadril no estilo Di Cavalcanti, lábios enormes, carnudos… Porém o preço a pagar por elas é muito caro.


A mordaça exibida as transexuais vem desde os primórdios, é o que se organiza primeiro. Desde o ventre, culmina em um sentimento de profunda inadequação que começa a lhe perseguir desde sempre. A elas, a sociedade impõe regras, normas que se não cumpridas, passam a se tornar castigos, punições e autoflagelos. Essas pessoas em sua maioria são segregadas, isoladas, privadas de qualquer convívio social, à margem, de maneira, que chega a ter um certo requinte de crueldade. São impedidas de frequentar escolas, igrejas, hospitais, praças, praias, clubes, etc, etc e etc.


Desenvolvem uma maneira de viver, ou melhor, de sobreviver que é o resultado das circunstâncias impostas pela própria sociedade. E é tão impiedoso que detona a insensibilidade e faz com que a maioria seja obrigada a se tornarem marginais, ou no mínimo revoltadas. Ou seja, continuam escondidas no submundo e as muito poucas que tentam submergir, acabam naufragando com o peso da bola de ferro amancebada desde sempre aos seus pés, muitas vezes gigantes por natureza. As quase nada, que restam e insistem na superfície, nadam e ainda lutam ferozmente para não morrerem na praia. Poucas, pouquíssimas essas que conseguem nadar, todos os dias são apontadas, servem de chacota e expostas a um desejo de que algo ruim lhes aconteça. Servem como, ou de exemplo para os que tentarem se impor ou a arrogar-se privilégios e qualidades. São execradas pela família, pela sociedade, pelo estado, pelo seu próprio meio chamado hoje de LGBTQIA+ e até por uma população à margem, os encarcerados.


Nos presídios, as transexuais, são proibidas de visitar os seus parentes, esses, são veemente ao negar qualquer ligação com os pais, irmãos ou parceiros transexuais. Essa combinação de fatores ajuda a entender por que mulheres, travestis, gays e transexuais enfrentam mais violência que os demais detentos ao cumprirem as suas penas. Em várias partes desse nosso Brasil varonil, quando encarceradas, elas são proibidas de usar roupas femininas; têm os cabelos raspados; são usadas como depósito de drogas. E quando as vistorias acontecem nas celas são obrigadas a colocar dentro de si quantidades inimagináveis de drogas dos traficantes, aparelhos celulares e tudo o que couber. Tratadas como mercadoria e usadas como moeda de troca por bens materiais entre os presos; estupradas por todos os homens da galeria onde cumprem pena; são excluídas da possibilidade de estudar e trabalhar na prisão. Praticar religião? Nem pensar. Também não podem, já que não são aceitas em nenhum tipo de culto. É uma série de violações aos seus direitos. O espantoso é que não deveria haver essas exclusões dentro de um ambiente onde todos são excluídos.


Proibidas de doar sangue, somente em junho de 2018, a transexualidade foi retirada da lista de doenças mentais pela Organização Mundial da Saúde –  OMS.  É um ódio alimentado de geração para geração. Mais impressionante: ele se perpetua. Claro que essa assertiva existe após inúmeras campanhas feitas, com discursos inflamados dentro de nossos próprios lares e ambientes diversos, discursos estes feitos por uma minoria cansada desta segregação e sem medo de serem tomadas por loucas, subversivas e revoltadas.  Somos um país que cultiva em berço esplêndido o machismo e o patriarcado. Nossas mães e avós foram educadas a somente abrir a boca em três situações: Na primeira e bem interessante: “Sim, senhor meu marido”. Segunda: “xô… xô… tangendo as galinhas do terreiro”. E a terceira: “Cala a boca Menino”. De complexo entendimento, que exige esforço intelectual, chegando a beirar risco e perigo iminente de enfrentamento, resolvemos “deixar pra lá”.

Apresentando igual ou semelhante complexidade, talvez insuperável, difícil de entender quando um pai, avô, tio ou chegado da família naquele almoço de domingo, onde toda a família está reunida, proclama aos berros a “República Dos Machos De Cueca Samba Canção e Seus Desconchavos”, óbvio, depois de coçar as suas partes íntimas, arrotar, escarrar e cuspir a quilômetros anuncia: “Eh, que voz é essa? Fala grosso rapaz! Aqui não eh! E continua… prefiro um filho bandido a um filho veado” e para enfatizar o despautério termina com um palavrão. Bem soubéssemos, aprenderíamos um pouco mais com a nossa história e seus exemplos.  A história da humanidade nos traz como exemplos algumas mulheres e “gays”, que mesmo em tempos muito difíceis fizeram a diferença.


O inglês Alan Turing, considerado o “pai do computador”, homem inteligente, foi execrado por ser gay. Julgado e condenado por uma justiça que se dizia: “De princípio moral e de valor”. Para evitar a prisão, foi obrigado a submeter-se a injeções que inibiam a libido e de ter uma ereção. Anos depois de sua morte foi proclamado herói de guerra. Mesmo com a vergonha exposta, não houve reparação. Infelizmente os gays, lésbicas e mulheres da nossa história, não tiveram tempo hábil e justiça para lutarem por respeito e se assumirem. Assim como as com coragem suficiente: “As Sufragistas” também inglesas, que enfrentaram uma sociedade inteira, a custas de muita perseguição policial, espancamentos, morte para reivindicarem seus direitos de voto, trabalhistas, sociais e de ter direitos a tutela de seus filhos e conseguirem escrever as suas histórias. O direito de ser “Puta”, reivindicado por muitas mulheres, inclusive aqui em terras Brasilis, encabeçado pela quase socióloga e puta Gabriela Leite. Que dizia: ”Prostituta é uma mulher e não tem doença só da cintura para baixo”.


Esses descasos, às vezes camuflado em alguns meios privilegiados, que podem bancar os “seus” em escolas muito caras e por si só conseguem justificar a “diferença” de seus entes em consultórios luxuosos. Porém, somos um país pobre, beirando a miséria, com a maior parte de sua população preocupada apenas com o seu próprio umbigo. A sociedade ocidental, (para usar um termo “elegante”), do último século alcançou um padrão de vida nunca na história se imaginou possuir. É bom esclarecer que esse tipo de vida não é para todos. Existe uma grande maioria que ainda não chegou nem perto de conseguir satisfazer as suas necessidades básicas. São poucos que acumularam uma estrutura material que permite cuidar de si mesmo como fazem os hedonistas. Porém o ideal seria sermos como os utilitaristas, que dizem – “o bem não está no prazer individual, mas naquele que se estende ao maior número de pessoas”. O mundo seria muito mais prazeroso, afável e cortês.


Somos contemporâneos, enfim vamos achar a panaceia para a cura dos males humanos. São raros os momentos em que uma sirene dispara e uma luz acende aos poucos, poucos são os que conseguem ver e ouvir o que se passa ao seu redor. Resta entender o porquê e a resposta não se dará por vias óbvias. É difícil explicar o porquê um jovem, ou uma jovem, é obrigado a abdicar do convívio de seus amigos e familiares por o acharem “diferente”, por não ser aceito como é.  Ainda é muito grande o número de suicídios e assassinatos a transexuais e travestis ocorridos inclusive na maior cidade do país. Devemos começar a treinar o respeito pelo semelhante. Treinar todos os dias, incansavelmente e repetir por anos, até que a vitória significativa seja alcançada.


São muito exuberantes as transexuais, porém essas pensam, sentem e amam.  Precisamos dispor de outro modo de enxergar essas mulheres, porque somente quando essas forem vistas como simples seres humanos, pessoa comuns, gente como o padeiro ou padeira, o ator ou atriz, o policial ou a policial, o médico ou a médica, a professora ou o professor, quando essas pessoas começarem a se assumirem sem rótulos ou subtítulos, é que será um sinal de que aquela sirene foi ouvida e a luz percebida.


A visibilidade, o sucesso ou exuberância dessas pessoas não devem mobilizar ou chocar, muito menos causar espanto ao ser humano que habita em cada um de nós. Merecemos oportunidades antes que seja tarde. Esse deve ser o desejo das novas gerações, afirmando o heroico presente para todas nós.


Jogê Pinheiro escreve para a coluna Espartilho Trans

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