Beleza não se põe na mesa



Cada um tem a sua luta particular – assim como a beleza.


Não é fácil ser mulher em um mundo cheio de cobranças, com origens desiguais, onde os valores são distorcidos e o desnecessário cada vez mais é acrescentado. O mundo atualmente, dominado por formas e padrões determinados por um grupo de pessoas que juram serem dotados de alguma espécie de “dom”. Estes seres ditos “especiais” determinam o que usar como usar, onde usar e o pior quem usar. Se este ou aquele nariz é perfeito. Se aquela boca está dentro dos padrões.


Olhamos em volta e percebemos que as caras, cabelos, seios, sobrancelhas, até a panturrilha agora tem o seu padrão. E coitado daquele ou daquela que diga um sonoro “NÃO!” a este padrão. Isto é real e notório, além de uma padronização de rostos que beiram a esquisitice. Irei um pouco mais além: Em tempos atuais, acredito que a maioria das meninas, e porque não, meninos, tem outros valores e preocupações. Porém, em pesquisa recente realizada pela Associação Brasileira da Industria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos – ABIHPEC.  Entre os homens a vaidade se tornou a principal preocupação. Em outra pesquisa realizada  pelo Google Brandla São Paulo, 93% dos homens dizem – “ Aparência é importante, aparência é  tudo!”


A vaidade vem se aprimorando e se aperfeiçoando durante o tempo e os brasileiros são considerados o povo mais vaidoso do mundo. Perde apenas para a Itália. É capito amore? Bem, dito isto.  Parafraseando dois poetas brasileiros que disseram na letra de uma bela música “Sampa”, uma frase que se popularizou e propagou-se  – “(…) É que Narciso acha feio o que não é o espelho…”. Nada que não seja igual a nós, ou venha de encontro àquilo que somos ou pregamos torna-se feio.  Outro poeta, também brasileiro, também músico completa em uma outra letra de uma outra música igualmente bela “Face de Narciso” –  “(…) São tantas verdades convergindo ao seu redor. Não existe a espada sem a lira. O espinho sem a flor”. Os poetas brasileiros? Gilberto Gil, Caetano Veloso e Jorge Vercillo.

Alguns historiadores consideram a Grécia Antiga como uma civilização de grande esplendor cultural. Foram eles, os gregos, que desenvolveram a filosofia, as artes, a tecnologia… São repletos  de cultura, cidadania e política. Tudo foi sendo aprimorado e fortalecido. Esta civilização conseguia transformar uma reunião, em praça pública, em uma das mais importantes contribuições para toda a história mundial as “Ágoras”.  Discutiam assuntos, debatiam conceitos, compartilhavam ideias e informações.


Para os Gregos, tudo o que excede e ultrapassa os limites vira algo que eles chamam de “hybris”. Esta palavra na religião Grega relata a insolência e o descomedimento, que esta relacionada ao excesso de confiança, arrogância e orgulho exagerado.


Usando o exemplo grego…Por que não chamar de “hybris” estes padrões de beleza estipulados por estes, estas ou aqueles? E sim senhoras e senhores, existe um grupo, digamos seleto que submete-se a sessões de cirurgias, lazer, massagens, chá milagrosos, são variadas as interversões cirúrgicas para se adequarem a uma figura que “talvez” não esteja de acordo com a sua e acaba que desarmoniza. As pessoas fazem uso destes artifícios pura e ou  simplesmente para se adequar, para serem aceitas.  A tal exaltação ao belo, que novamente “talvez” não seja o seu belo. “O nariz de fulana é bonito nela.” “Os seios enormes, volumosos são bonitos e ficam bem na outra”. E vai saber o preço que esta fulana ou fulano paga por isto. Este “preço” aqui citado não é somente falando apenas do monetário. Falo do preço social, moral.  Como disse um dos poetas citados: “(…) São tantas verdades convergindo ao seu redor. Não existe a espada sem a lira. O espinho sem a flor”.


O ato e efeito de engrandecer, celebrar e imitar o que é bonito no outro sempre foi démodée. Precisamos contar as nossas histórias, exibir orgulhosamente as nossas cicatrizes.


Essas histórias e cicatrizes que convergem com todas essas “verdades” que a nós são impostas. Histórias de mulheres heteros, gays, transexuais, que com muito esforço, empenho, dedicação e sem qualquer desprendimento de si próprias em favor delas mesmas, ou de outrem chegam à consagração por serem apenas e tão somente elas. De seu jeito e forma. Sem a necessidade de obedecer a padrões estabelecidos sei lá por

quem.  Esse padrão afeta a vida de tantas mulheres de uma forma às vezes irreversível.


Em 2016 A DOVE mais o Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro – PUC-Rio e a Universidade Veiga de Almeida juntas realizaram um estudo que dizia que no Brasil 71% das mulheres sentem-se pressionadas para se adequarem a um padrão de perfeição. Oito em cada dez das quatro mil mulheres entrevistadas com idades que variavam entre 18 e 64 anos, disseram já ter evitado um compromisso social por não se sentirem “bem” com o seu próprio corpo.


Ah, mulheres… Façam-me o favor! Precisamos estabelecer as nossas regras. Vamos glorificar a excitação de ânimo e sublimação de uma substância única chamada mulher. O estereótipo da mulher nota mil despencou do carro alegórico em plena Sapucaí e se estabacou com todo o peso de sua consciência. Avisa ao “Vinicius” que vá a merda com o seu discurso de que: “ …desculpem as feias, mas beleza é fundamental…” Vovó diz que beleza não se põe na mesa.


Mulheres! Cabelo se tivesse grande importância não nasceria onde nasce para sujar de “M…”. Somos mulheres! Aquelas que levanta, sacode a poeira e dá nó em pingo d’agua. Mulheres, e aqui estas “Mulheres”, somos todas as mulheres… hetero, gays, trans…. Ainda são avaliadas primeiro por sua aparência. As atitudes e qualidades ficaram para segundo plano, isso quando temos a chance de conseguir mostrar tais virtudes, lembrando: que estas virtudes foram conquistadas às custas de muita luta. É ou não é uma sociedade machista, repleta de desigualdades e raízes profundas patriarcais?

“Precisamos nos sentir capazes de sermos bonitas do nosso jeito. Se o sistema se fragiliza com isso, problema dele. Este é um ato de liberdade.”

Na letra de garota de Ipanema, o poeta não descreve a garota que vem e que passa. Ele fala do amor, da alegria de tão somente vê-la passar. Pode ser qualquer uma. Pode ser eu. E sim, novamente, outra vez tocando no assunto mulheres trans, mulheres negras a nossa autoestima é revolucionária. Precisamos nos sentir capazes de sermos bonitas do nosso jeito. Se o sistema se fragiliza com isso, problema dele. Este é um ato de liberdade.


Necessitamos exercitar esta aceitação de como somos. Esta afirmação não é tarefa fácil e na maioria das vezes é um posicionamento político. E posso garantir; irá exigir dedicação diária. Desfazer este “padrão modelo” que nos foi ensinado durante séculos não é tarefa simples, exige esforço, determinação e muito trabalho. Enfim, para concluir… Com toda essa combinação e cruzamento de culturas, costumes e poetas, o importante é tentar entender que desde lá, na Grécia Antiga a importância está na influência da construção da história e que através de suas “Ágoras” se permitiram criar a democracia e a construção de estudos filosóficos, definindo conceitos como comunidade e humanidade, detalhe importante em praça pública.


Já dizia outro poeta: “… A praça é do povo…” Castro Alves. E é na praça que o povo esta, é na praça que devemos continuar altas, gordas, carecas, pretas, morenas, mulatas, brancas o importante é termos a consciência tranquila de que fizemos a escolha certa e orgulho de que esta é a nossa escolha.


Jogê Pinheiro para a coluna espartilho trans

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