Um oi daqui


Oi Dinda! Como você está aí, do outro lado desse enorme muro que divide nossas existências? Espero, do fundo do meu coração, que você esteja bem e que continue com essa sua gargalhada gostosa que alegrava todos os sortudos que podiam desfrutar da sua companhia...


Trago notícias daqui, do planeta Terra, mais especificamente do país que você costumava habitar, o Brasil - se lembra? Pois, então... aqui as coisas estão bem confusas, bem estranhas.


Temos novos vírus, novos vícios e novas formas de organização social. Vivemos em um sistema hermético sem direito a expressar nossa opinião, e você sabe bem que eu, desde pequena, sempre amei dar a minha opinião! Mas agora é diferente... todos estão com medo. Temos medo de falar e sermos mal-interpretados, temos medo de assumir quem somos e de sermos julgados, aliás, a palavra agora é "cancelamento". Sim, temos medo de sermos cancelados em uma coisa chamada "rede social"...


Vivemos uma repressão de sentimentos e, mais do que nunca, buscamos sorrir para ficarmos bonitos nessas fotos das tais redes... o divertido é que, agora que já tenho idade, aplico um produto para endurecer minhas expressões faciais e parecer mais jovem. E cada vez que sorrio sinto minha pele se esticar mais e mais... rs


Mas o mais impressionante é que a ideia social de felicidade inclui se sentir bem com a idade que você tiver, se assumindo autenticamente como uma mulher feliz com sua jornada de vida até esse momento. Esse conceito é incrível e eu ajudo a propagá-lo, mas a verdade é que aplaudo os cabelos brancos das outras mulheres e corro para pintar minha raíz, pois genuinamente não quero perceber que já tenho 44 anos.


Idealizo uma Cris jovem, como aquela que você viu um pouco antes de partir... e a aparência ainda importa muito para mim nesta etapa do meu processo... Quero sentir um pouco daquela Cris que falava o que queria e que se vestia de uma forma completamente desconexa só para achar que estava criando "moda".


Sim... (rs) Eu sempre gostei de criar! E criei uma Revista que tem como propósito a inclusão e a diversidade. Nessa Revista eu busco dar voz à mulheres oprimidas e colocadas à margem da sociedade. Busco levantar suas bandeiras como se minhas fossem porque me apaixonei por suas causas. Mas, de novo: confesso que tenho um certo medo de ser mal-interpretada por não ocupar um "lugar de fala" legítimo. Ah! você não deve saber o que significa essa expressão! Vou resumir: "lugar de fala" é o termo que as pessoas atualmente usam para definir quem tem ou não propriedade para abordar um determinado assunto. Assim sendo, eu não posso abordar esses assuntos diretamente, mas posso contribuir com a acolhida à pessoas que possuem esse lugar, abrindo o caminho para que elas passem.


Você deve estar se perguntando se eu, em algum momento, ouso dar a minha opinião sobre esses temas e essas dores? Claro que sim, afinal sou abusada e vivo quebrando as regras do bom comportamento. Sou uma eterna rebelde social e sempre serei colocada na fogueira dos conservadores por nunca me render aos seus pleitos e crenças limitantes.


E para deixar bem claro isso, criei uma personagem dona de um bordel para conduzir esse "baile" e intitulei como slogan a frase: "ousada, provocante e livre". Porque eu acho que sempre lutarei para encontrar meu lugar nesse mundo enorme, quebrando todas as barreiras que puder e buscando o conforto da sua risada no final do caminho.


Com relação às metas que combinamos, ainda não consegui alcançar a metade dos sonhos que um dia definimos para mim; ainda não visitei os países da África que você me apresentou quando eu era pequena, não consegui ir no Programa do Jô para ser entrevistada (ele já foi embora deste plano também) e não tive uma música da Marina feita em minha homenagem...


Mas saiba que, apesar disso, eu consegui encontrar um cara muito especial para dividir minha vida e fiz com ele três filhos maravilhosos! E eu procuro ser parecida com você em todas as vezes que quebro as regras e falo bobagens , brincando como uma eterna criança! E, mais importante: os ensino diariamente a não terem medo de serem quem são, e que sim, eles podem expressar sua opinião, mas sempre com o cuidado necessário para não serem reprovados no colégio, cancelados nas redes ou excluídos na sociedade.


Afinal, viver nos dias de hoje requer muita estratégia, paciência e, acima de tudo, muita coragem.


Termino minha carta aqui enviando meu amor e desejando que o lugar onde você vive atualmente seja mais parecido com o nosso passado.


Fui! (Continuar minhas batalhas diárias...)


Sua afilhada Cris