Após o primeiro verão



Quem está me acompanhando sabe que vim aos Estados Unidos para um trabalho de verão, mas acabei ficando, ficando e hoje já moro em NY há 17 anos. Alguns amigos acham que eu tenho sorte, outros acham que tudo foi fácil, mas eu acho que o mérito de tudo que tenho é trabalho, honestidade e propósito. Nem tudo foi flores. Na primeira vez que vim para a América, vim para um trabalho de verão em uma montanha de esqui em Seatle e desisti no quarto mês de trabalho. Mas conto isso em outro matéria, hoje vou contar sobre o meu primeiro pós-verão.

 

Acho que, pela primeira vez na vida, contei quantas semanas tem um verão – são 14 delas, pois começamos com o feriado de 30 ou 31 de maio e vamos até 3 ou 4 de setembro. Aprendi a contar as semanas, as horas do dia, pois sonhava em terminar meu turno de trabalho, descansar e estar pronta para o próximo dia.

 

Na época, eu não sentia cansaço — muito pelo contrário. Se me dessem mais horas de trabalho, melhor seria, porque ganharia mais dinheiro ao final daquela semana. Aqui os pagamentos são semanais, não precisamos esperar o final do mês. No começo a gente estranha, achei que ia gastar tudo na semana seguinte; mas depois me adaptei, e é claro que não gastamos na semana seguinte, e hoje acho que essa maneira é a correta.

 

As funcionárias de onde eu trabalhava eram brasileiras, e confesso que algumas foram um “anjo” vindo do céu e outras, vindas do inferno. Brincadeiras à parte, e já peço desculpas, mas aprendi como o brasileiro é ciumento: gosta de dar um jeitinho pra tudo e adora uma fofoca, um disse me disse e por aí vai.

 

A vida da América nos deslumbra. Tudo é novo, bonito e organizado, e funciona! Não temos cansaço e somos valorizados perante outras pessoas da América Latina, como mexicanos, equatorianos, salvadorenhos etc. Na América, aprendi que fila quer dizer uma pessoa após a outra, e não cortar a fila porque conhecemos o dono. No trânsito, não se buzina; buzinar é para os estressados — lembrando que moro em uma cidade pequena. Por favor e obrigada são palavras que todo mundo pratica. Bom, não preciso dizer que sou apaixonada pelo país que me acolheu e me fez quem sou hoje. Sou grata e procuro ajudar como posso quem está chegando, desde que os objetivos sejam os mesmo que os meus: trabalhar e vencer na América. Não gosto de gente encostada ou que tira vantagem de outras pessoas. Claro que, para os americanos, falta o sangue quente do latino, o sorriso largo no rosto e o gingado para fazer da pior situação uma oportunidade que somente nós, brasileiros, temos.

 

As pessoas que chegam à América ficam deslumbradas — e não tem como não ficar, aqui as coisas funcionam, nos fazem sonhar. No primeiro emprego como empregada doméstica, eu tinha um carro dez vezes melhor do que o que eu tinha no Brasil quando trabalhava numa multinacional; comia o que os donos da casa comiam, sempre do bom e do melhor. Tudo isso faz com que a sua vida no Brasil passe como um filme na sua cabeça. Você sabe de onde veio, mas agora você sabe para onde quer ir, e esse futuro talvez seja melhor na América do que no Brasil — essa conversa também cabe em outra edição. O futuro não é mais uma coisa distante, e você começa a sonhar o seu próprio sonho, porque na América a estrutura proposta pelo governo é propícia. Os juros praticados são diferentes; aqui não temos, por exemplo, como comprar uma geladeira parcelando em doze vezes. Por isso, se você tem dinheiro, você compra; se não tem, não compra. Você pode pôr o valor da geladeira em seu cartão de crédito e ir pagando aos poucos, mas para a loja que vendeu o eletrodoméstico é à vista.

 

No começo da minha vida na América, fiz amizades com outras brasileiras e visitava suas casas. Saíamos para um café, um cinema, um hambúrguer, e comecei a me familiarizar com a cultura local, as lojas, o trânsito e todo o resto. Meu sonho era falar a língua, me comunicar do jeito que falo o português, e percebi que não seria fácil — afinal, eu estava com 42 anos —, como foi e é difícil até hoje. Aprender algo quando ainda somos crianças é uma coisa, mas aprender algo aos 42 anos não é fácil.

 

O trabalho de verão tomou corpo, e então eu queria perseguir o meu sonho: queria andar na rua com um bom relógio ou um celular sem medo de ser assaltada; queria dirigir um bom carro com o vidro aberto; queria ter o green card e poder me candidatar a outras vagas de trabalho. Percebi, então, que queria ser americana.

 

Depois de um tempo, você percebe que tudo é possível, mas o passo zero é aprender a sobreviver — ou seja, se comunicar e aprender a língua. Vejo muitas pessoas aqui de outros países que continuam vivendo em seus países mesmo estando na América: por exemplo, só frequentam lugares que tenham pessoas que falam a sua língua (igreja, salão de beleza, manicure, lojas de roupas etc.). Eu procurei fazer totalmente o contrário. Vivenciava a igreja local com missa em inglês, ia ao supermercado e tentava interagir com as pessoas que estavam por lá. Até hoje faço meu cabelo com pessoas de vários países; não tenho preferência e procuro interagir com todo mundo, pois só assim pude crescer e absorver o que gosto. E o que não gosto, deixo de lado.

 

Foi assim que surgiu a oportunidade de continuar na América mesmo depois do verão. Por intermédio de uma brasileira que estava deixando o estado de New York e indo para a Florida, peguei o lugar dela e comecei a trabalhar para uma modelo famosa — da qual me guardo o direito de preservar o nome, mesmo porque assinei um contrato de confidencialidade — e saí do status/posição de empregada doméstica para gerenciar uma casa.

 

Passei de trabalho de verão para um trabalho anual ou, pelo que havia entendido na entrevista, pelo tempo que eu quisesse. Assim foram os meus cinco anos seguintes.


Matéria de Ana Anselmo para a coluna minha vida em NY

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