Chicago para New York



Para quem conhece essas 2 cidades sabem que são encantadoras, mas para quem não conhece eu vou contar uma história interessante e até engraçada.


Sai do Brasil e fui para Chicago. Eu iria pegar um emprego de um amigo que havia sido convidado para outro trabalho. Queria fazer dessa oportunidade a minha missão de vida – viver na América. Entrei como turista (ou seja, 6 meses de visto), mas não queria de jeito nenhum me tornar uma ilegal, então tudo tinha que acontecer rápido dentro dos 6 meses de visto. Emprego, lugar para morar, fazer dinheiro, e não ficar ilegal.


Desembarquei com 2 malas e 200 dólares até começar a trabalhar na casa de uma família, essa era a promessa. Minha amiga de Chicago – Marilyn – me pegou no Aeroporto e me levou pra casa dela em Illinois. A casa ficava longe do Aeroporto, mas próxima a uma linha de trem. Fiquei hospedada no basement (porão). Foram 2 semanas esperando o telefone da casa tocar para então seguir para onde eu iria encontrar o amigo que me daria o emprego dele.

“os planos mudaram….” Fiquei gelada, não sabia se chorava ou se ria.

O telefone tocou depois das 2 semanas e lá fui eu, me encontrar com o amigo sem falar inglês, morrendo de medo, mas fui. Cheguei no local combinado, gastei alguns dólares com dor no coração, porque quando acabasse, eu não tinha de onde tirar mais. Eu e meu amigo trocamos sorrisos, “como vai” e logo a frase impactante – “os planos mudaram….” Fiquei gelada, não sabia se chorava ou se ria. Ele me contou que quando comunicou a família que iria sair para um outro trabalho a família havia triplicado o seu salário. Ou seja, ele não iria deixar aquele emprego, eu não tinha emprego previamente certo e precisava sair da casa da amiga de Illinois que já me acomodava por 2 semanas. Eu já havia sentido que estava incomodando, ou seja, desespero à primeira vista.


Voltei pra casa da Marilyn e me lembrei que havia conhecido uma pessoa a meses atrás e que ela havia me dado o seu telefone. Ela morava em New York, mas era a única brasileira que eu conhecia na América. Hoje, Elizabeth é uma amigooona. Liguei, e pedi; “pelo amor de deus, não posso voltar pro Brasil. Preciso de pelo menos 6 meses de trabalho.”


Ela então me pediu alguns dias para ver o que ela poderia fazer por mim. Depois de 2 dias ela ligou pra casa da minha amiga e disse; “venha para New York que tenho um trabalho de verão para você”, ou seja, 4 meses de trabalho. Não tinha dinheiro para voar, mas tinha dinheiro para ir de trem. Foram 25hs de trem intermináveis. Na primeira parte da viagem o banco vizinho estava vazio. Na segunda parte, tive como companheiro um indiano (cheirando todas as especiarias da Índia – adoro comida Indiana, mas os temperos são bem fortes). Fizemos amizade e eu me comunicava com símbolos, risadas e ele com um inglês indiano. Até hoje me pergunto o que será que conversamos nas primeiras horas da segunda parte da viagem.


A noite chegou e aí foi impossível dormir. O cheiro que saía do meu vizinho era de páprica, massala e curry, tudo junto, além do ronco. Consegui pular meu vizinho, sai de fininho e fui para o vagão de comidas e passei o restante da viagem lá, acordada por mais de 12 horas, pensando no que estava fazendo. Cheguei em New York, o meu vizinho de banco nem percebeu que eu não tinha passado a viagem ao seu lado. Ele me ajudou com as 2 grandes malas (sem rodinhas) e de Grand Central, me despedi rápido e ali eu estava sozinha mesmo.


Sair dessa estação e ir para La Guardia foi a Aventura mais marcante de minha vida. Sem falar inglês, sem ler, dinheiro contado, 2 malas sem rodinhas e extremamente pesadas, seguindo com um papel na mão. Pedi a um guarda uma ajuda – no papel dizia: preciso ir para La Guardia. Ele me indicou pra onde, eu caminhava e arrastava as 2 malas. Dava mais 10 passos e mostrava o papel e outra pessoa me indicava por onde seguir. E foi assim até chegar ao pé de uma escada. Mas como ia fazer para subir essa escada com 2 malas?

Como se fosse uma cena de filme encomendada, um halterofilista (se ele não era, poderia se candidatar) parou ao meu lado e falou algo que deve ter sido “precisa de ajuda?” e eu só balancei a cabeça. O rapaz pegou uma mala em cada mão e subiu os tantos degraus. Agradeci a ele e a deus que me deu uma mãozinha, literalmente.


Tomei mais um trem e cheguei ao Aeroporto. Fiquei embaixo da placa que minha amiga havia me dito, esperei por horas, pois havia chegado muito cedo – sem comer e sem ir ao banheiro, não tinha mais força pra arrastar as malas. Tinha uma sensação de medo com desespero e isso não passava. Finalmente ela chegou e ouvi a minha primeira palavra em português depois de 2 semanas – “Ana”. Corri, abracei, chorei…. Nem éramos tão amigas, mas a sensação de que ia dar tudo certo, me abraçou de volta.


Fui para a casa dela e no dia seguinte fiz a entrevista com uma brasileira que trabalhava para uma estilista. Então eu trabalharia em uma casa de veraneio por 4 meses.

Está pronta pra saber como foi meu primeiro verão na América? Vou te contar tudinho no nosso próximo encontro.


Até lá…


Matéria de Ana Anselmo para a coluna Bolsa de viagem

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