De Lukov, com amor



De Lukov, com amor é o romance de estreia da autora Mariana Zapata no Brasil, uma mistura de slow burn com enemies to lovers. Na história, que já se tornou um grande sucesso entre a comunidade literária, conhecemos nossa protagonista, Jasmine Santos, e o ilustre Ivan Lukov: dois patinadores artísticos que são obrigados a trabalharem juntos durante a próxima temporada de inverno por um ano.


O único problema? Eles não se suportam e não conseguem passar míseros 5 segundos juntos sem alfinetarem um ao outro. Imagina o que poderia acontecer durante 365 dias.

Jasmine, porém, enxerga a proposta como uma oportunidade de voltar a competir nas pistas de patinação no gelo e de conquistar o título de campeã que sempre quis. Depois de 17 anos e com uma coleção de ossos quebrados, ela sabe que seu tempo para competir está chegando ao fim.


Enquanto os dois treinam para os campeonatos, a garota de pavio curto percebe que não fazia ideia de quem era o verdadeiro Ivan Lukov e se surpreende com o parceiro fiel que ele é. E o queridinho do público jamais imaginou que a mulher, que carregava tanta seriedade no olhar, fosse confundir seus sentimentos.

"Eu preciso ressaltar que a autora conseguiu construir uma personagem feminina memorável. Jasmine Santos é uma protagonista com objetivos definidos e com demônios a serem superados durante a narrativa."

Eu preciso ressaltar que a autora conseguiu construir uma personagem feminina memorável. Jasmine Santos é uma protagonista com objetivos definidos e com demônios a serem superados durante a narrativa. Ao longo da leitura, consegui enxergar uma forte pressão que ela sentia em dar orgulho para a própria família, que sempre a apoiou e investiu dinheiro para que ela conseguisse realizar seus sonhos como patinadora artística. E, por pensar que ainda não havia conquistado títulos o suficiente, a culpa a consumia.


Diferente dos romances os quais estou acostumada a ler, a nossa narradora tem opiniões fortes e não deixa de se posicionar. Eu poderia definir a protagonista como prática, séria e alguém que não leva desaforo para casa.


Outro ponto interessante a ser trabalhado no livro foi a relação da Jasmine com o pai, que não acreditava no seu verdadeiro potencial e insistia que ela deveria seguir o mesmo padrão de todo mundo: fazer uma faculdade e trabalhar em um ambiente corporativo. Mas ela era uma artista e mostrou quão boa e determinada era do início ao fim, inclusive a ele.


O único problema a respeito de sua trajetória que deixou a desejar foi a pauta sobre assédio virtual. Jasmine recebia mensagens e cartas eróticas, e, por se tratar de um assunto relevante, achei que merecia mais destaque do que apenas menções ao fato, uma descoberta e depois varrer para debaixo do tapete. Como escritora, a Mariana Zapata poderia ter abordado sobre as consequências relacionadas ao tema e determinado um fim mais severo a essa questão tão importante.


No entanto, se por um lado tivemos uma personagem feminina cheia de camadas, eu terminei a leitura sem saber quem era Ivan Lukov. Quem era ele de verdade, pois patinador artístico, rico, salvador de bichinhos indefesos e um gato de olhos azuis-acinzentados, isso ficou claro. Destaquei várias citações de momentos em que ele foi um fofo, mas eu gostaria que a autora tivesse trabalhado suas motivações e seus problemas internos, porque personagens são pessoas, logo, seres humanos têm problemas sérios para lidar.



A escrita é deliciosa, mas eu esperava ler um livro em que as competições artísticas fossem o principal plano de fundo do romance. Eu gostaria de ter visto personagens competindo e sentindo a adrenalina de estarem no gelo, mas o que li foram apenas treinos e mais treinos. A competição de verdade foi um grand finale.


Mais um ponto negativo para mim foi o fato de a Jasmine ter uma melhor amiga na história, Karina Lukov, irmã do seu atual parceiro, e elas terem se falado apenas uma vez durante o enredo. Em vários momentos, a protagonista dizia que as duas eram melhores amigas desde a infância, mas essa relação de amizade não foi mostrada, de fato. E, mesmo Karina estando na faculdade, poderíamos ter tido acesso a ambas se falando por telefone ou trocando mensagens. Neste caso, aqui, seria uma boa hora para a escritora usar o “mostre, não conte”.


Acompanhar um relacionamento sendo desenvolvido de forma lenta e gradual foi uma experiência interessante e ao mesmo tempo terrível para uma leitora apaixonada por insta love, mas eu gostei. Porém um primeiro beijo somente nas últimas páginas do livro já é demais, Mariana Zapata.


De Lukov, com amor foi um livro que me conquistou em alguns momentos e me decepcionou em outros, mas eu não poderia deixar de recomendar para que você tenha a sua própria experiência. Se você gosta de romances lentos com inimigos que se tornam amantes e personagens secundários divertidos, aqui está a sua próxima leitura.


Matéria de Victoria Cabral para a coluna Dicas de Livros

Encontre-a no Instagram @abruxaescritora