Meu cabelo enrolado



“Meu cabelo enrolado

Todos querem imitar…”


Perdi a conta de quantas vezes já cantei nas festas essa canção do compositor Macau, que se tornou sucesso na voz de Sandra de Sá. Em todas as vezes, um senso de pertencimento, orgulho negro, me invade. Essa música fala o que sempre quisemos entoar.


“A verdade é que você (todo brasileiro tem!)


Tem sangue criolo…”


Pena que nem sempre foi com essa energia positiva que essa canção me envolveu…

Lembro das vezes em que passava e ouvia a canção, de bocas supostamente brancas, quase como um sussurro e cheia de risadinhas:


“Sarará criolo… sarará criolo”


Na minha infância, morava num conjunto residencial para militares da Marinha, e é incrível como havia poucas crianças negras. De quase 400 apartamentos, eu só consigo me recordar de 4 famílias negras na minha infância residindo lá – uma delas era a minha. Minha irmã era a legítima sarará, pele mais clara, cabelo claro, olhos verdes. Eu era a negra da família.


Éramos três as meninas negras da mesma faixa etária. Uma recebeu o apelido de “Cunhã” (inspirado na personagem do quadro Painho, do Chico Anysio), a outra de Elaine Neguinha (nome verdadeiro trocado por Elaine) e eu, que era simplesmente Érica. Talvez porque a minha pele fosse levemente mais clara que as das colegas. Mas todas nós ouvimos a canção entre os colegas, em tom de chacota: “Sarará criolo…”

“Vocês podem considerar ridículo o que vou falar, mas eu sinto que se eu não tivesse alisado meu cabelo, não teria aberto espaço nas mesas prioritariamente masculinas e brancas e ascendido a posições gerenciais”

Minha mãe desde cedo “domava” nossos cabelos com henê. Era cultural na nossa família. Chegava na casa das minhas tias e elas olhavam o meu cabelo e por vezes diziam: “tá na hora de retocar o henê, hein”. Isso mortificava a minha mãe, pois parecia sinal de desleixo, mas só ela sabia o estresse que era para me convencer que era dia do henê.


Eu tive um cabelo alisado na altura da cintura. Era tão bem cuidado com henê e touca (uma forma de alisar o cabelo prendendo com grampos em torno da cabeça) que ganhei novo status: “parece índia”. Minha negritude era “camuflada” com um cabelo comprido alisado e uma descendência indígena também verdadeira.


Aos 10 anos, depois de muito implorar à minha mãe, cortei o cabelo na altura do ombro. Pra mim, foi uma libertação. O passo seguinte foi não passar mais henê – naquela época, as marcas tinham cheiro forte, que era sentido por dias. Mas a touca continuou até o final do ensino médio. Ali eu decidi que ia assumir meus cachos e passei a me sentir livre!


Até que, após a faculdade, ingressei no ambiente corporativo, numa grande empresa. Ninguém me disse nada (nem poderia), mas eu sentia um quê de inadequação. E não era por ser minoria na empresa majoritariamente branca. Na minha turma na faculdade, em todos os semestres, eu era a única negra e isso nunca me incomodou. A questão é que ali parecia que eu não estava devidamente “enquadrada” no visual da corporação.


Naquela época, todos os gerentes (e a maioria era masculina) usavam ternos. As mulheres aderiam principalmente aos terninhos. Cabelos sempre “bem-comportados”, escovados. Meus cachos davam um movimento que não combinava com a apresentação.


Até que fiz uma escova, para ter um look diferente num evento. Foi impressionante como fui notada. Como fui elogiada, não só por homens, mas também por mulheres. Ouvi de novo: “Nossa! Parece cabelo de índia!”


Meus cachos no trabalho se tornaram cada vez mais raros. Até que a escova progressiva chegou para facilitar o processo.


Vocês podem considerar ridículo o que vou falar – e realmente é -, mas eu sinto que se eu não tivesse alisado meu cabelo, não teria aberto espaço nas mesas prioritariamente masculinas e brancas e ascendido a posições gerenciais (pelo menos no mesmo ritmo). Só depois que eu minimizei o impacto da diferença, que eu consegui espaço para compartilhar ideias, para ouvir e ser ouvida.


Estamos falando de um cenário do início do milênio. Já evoluímos bastante (graças a Deus!). Cabelo deixou de ser uma questão, mas há outras em pauta atualmente. A própria importância da pauta sobre diversidade evidencia que ainda estamos longe de um ambiente de equidade, em que as pessoas não precisem se enquadrar ou camuflar, e sim, que as diferenças sejam valorizadas e vistas como fator impulsionador do desenvolvimento.


Nossa atitude é alicerçada nos fundamentos que nos formam, mesmo as mais simples, como cabelo ou forma de se vestir. Tolher as pessoas de se revelar por inteiro é impedir que sejam respeitadas em sua plenitude e complexidade. Fiquemos atentos aos novos símbolos para combatermos todos os sinais de enquadramento silencioso.


Obviamente, meu cabelo agora depende de como eu quero me apresentar. Sem pressão, sem uma “aura” no ambiente. Mas preciso confessar que fiquei sequelada, porque ainda me apresento majoritariamente em momentos profissionais relevantes com o cabelo escovado.


Não envolve fatores externos, mas se tornou uma necessidade para mim. A gente se adapta na vida e eu passei a me sentir mais “eu profissional” assim. De tantas sequelas possíveis por aí, esta é fácil de administrar. Que não estejamos criando outras mais traumáticas.

Matéria de Érica Saião para a coluna carreira

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