Chega de julgamentos!
- flaviasantosalbuquerque
- há 14 horas
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Julgamos o próximo com palavras, olhares e ações. Quem nunca apontou o dedo para alguém que atire a primeira pedra. Cresci ouvindo comentários depreciativos sobre as profissionais do sexo. Durante anos, ouvi que as mulheres que ganhavam a vida através do sexo eram vulgares, que tinham escolhido a 'vida fácil', eram pecaminosas e que mulheres 'decentes' não deveriam ser amigas delas.
Sinto vergonha em dizer que, até quatro anos atrás, eu ainda pensava assim. Mas o mais importante é o fato de ter evoluído, estudado e aprendido que a minha função como cristã é acolher, e não julgar. Cada um faz o que quer da própria vida; cada um tem a sua história. É com muita alegria que trago a entrevista realizada com Viviane Castelo, uma profissional do sexo que está fazendo um trabalho incrível para auxiliar suas colegas de profissão e promover o acolhimento e o respeito.

Quando conto sobre a minha profissão, percebo que a reação das pessoas fala muito mais sobre elas do que sobre mim.
Flávia: Você cresceu em um orfanato. Como foi a sua infância e essa parte da sua história trouxe de lição?
O período em que vivi no orfanato foi decisivo na formação de quem eu sou. Apesar de todas as adversidades que precisei enfrentar, tive ali, graças a Deus, um suporte psicológico e pedagógico muito importante, que fez toda a diferença na minha trajetória. Foi um espaço onde aprendi a elaborar dores sem transformá-las em ressentimento.
No orfanato, aprendi a não culpar, a não cultivar preconceitos, a perdoar e a lutar pelo que eu acreditava. Foi ali que me tornei uma pessoa independente desde muito cedo. Cresci mais rápido do que o esperado, desenvolvi disciplina e encontrei nos esportes uma ferramenta fundamental de equilíbrio, foco e fortalecimento emocional.
Tive acompanhamento de psicólogas e psicopedagogas, uma rotina estruturada entre escola, atividades esportivas e convivência coletiva. Esse ambiente me ensinou o valor do acolhimento, da partilha e do respeito ao outro. Aprendi a dividir, a conviver com diferenças e a compreender realidades diversas.
Fui adotada três vezes e, em todas elas, vivi realidades financeiras muito distintas. Quando retornava ao orfanato, voltava também para aquilo que era, de fato, essencial para mim: estar próxima das pessoas que eu amava, especialmente do meu irmão. A impossibilidade de levá-lo comigo nas adoções foi uma dor constante, mas também uma grande lição sobre pertencimento e afeto. Foi ali que entendi que o que realmente importa não é o dinheiro, mas os vínculos que nos sustentam.
Entre idas e vindas, passei longos períodos sem ser adotada, mas nunca deixei de seguir firme. Ainda muito jovem, aprendi a me posicionar, a me defender e, sobretudo, a proteger. No orfanato, a realidade exige força: ou você aprende a se defender, ou acaba sendo silenciada. E eu aprendi — não apenas por mim, mas também pelo meu irmão, que precisava da minha proteção.
Foi nesse contexto que nasceu a mulher que sou hoje. Uma mulher corajosa, determinada, acolhedora, sem preconceitos e consciente da própria dignidade. A minha infância, especialmente no orfanato, foi a base de tudo: moldou minha resistência, minha empatia e o compromisso que carrego até hoje com a defesa da vida, do cuidado e da justiça.
Flávia: Como surgiu a ideia de fazer o coletivo das Divas e a criação da associação APSEX RIO?
O Coletivo das Divas nasce em um momento de travessia pessoal e profunda reflexão. Como acontece com a maioria das pessoas, a necessidade de trabalhar sempre esteve ligada à sobrevivência. Foi assim que cheguei ao Rio de Janeiro separada sem nenhum dinheiro e cindo fihos para criar que passei a atuar como profissional do sexo. No início, tudo era novo, intenso e até sedutor. Com o tempo, porém, a rotina passou a me provocar questionamentos mais profundos sobre sentido, propósito e futuro.
Em uma noite comum, de segunda-feira chuvosa, dentro de uma boate em Copacabana, eu me olhei com mais atenção. Aos 40 anos, me perguntei se aquele seria o meu destino final. Não como julgamento da profissão, mas como reflexão existencial. Questionei se aquilo representava algum tipo de punição — e logo compreendi que não. Sempre fui uma boa mãe, uma boa esposa, uma mulher íntegra. Foi nesse instante que a fé se fez presente de forma muito clara: se Deus me havia colocado ali, não era por castigo, mas por propósito.
Naquele ambiente, eu já percebia diariamente o quanto aquelas mulheres enfrentavam vulnerabilidades silenciosas: falta de informação sobre saúde, ausência de orientação jurídica, desconhecimento de direitos e deveres, além de uma enorme carência de acolhimento. Por ser a mais velha entre elas, muitas já me procuravam espontaneamente em busca de apoio, escuta e orientação. E eu ajudava — porque cuidar sempre fez parte de quem eu sou. Foi dessa consciência que nasceu o Coletivo das Divas.
Naquela mesma noite, criei um pequeno grupo de WhatsApp com cinco mulheres. O que começou de forma simples cresceu rapidamente, tornando-se uma rede viva de apoio, troca e fortalecimento. Hoje, o coletivo reúne cerca de quinhentas profissionais do sexo, exclusivamente mulheres cis, que encontram ali informação, acolhimento e pertencimento.
O trabalho do coletivo envolve acesso à saúde, com ações de prevenção como PrEP e Implanon, orientação sobre direitos, deveres, legislação e segurança no trabalho, além do fortalecimento da autonomia feminina. Um projeto construído a partir da escuta, da vivência real e da urgência de quem sempre precisou se proteger sozinha. Com a consolidação dessa atuação ao longo de sete anos, surgiu a necessidade de ampliar horizontes. Assim nasce a APSEX Rio — Associação dos Profissionais do Sexo do Rio de Janeiro, agora com CNPJ e estrutura institucional, incorporando mulheres, homens, pessoas trans, a população LGBTQIA+ e PNA+. Um passo histórico que marca a maturidade de um movimento que começa no cuidado e se transforma em política social. Entramos em 2026 com a certeza de que este é um tempo de colheita e transformação. Um novo ciclo que reafirma dignidade, visibilidade e direitos para profissionais do sexo — no Rio de Janeiro e além. Uma mudança que nasce do afeto, da coragem e da fé de que toda mulher merece ser vista em sua plenitude.
Flávia: Vivemos em uma sociedade extremamente preconceituosa, mas que aos poucos, à passos lentos, vai evoluindo. Qual é a reação das pessoas quando você conta a sua outra profissão (além de DJ)? Já sofreu rejeição?
Vivemos em uma sociedade que ainda carrega muitos preconceitos, embora avance, aos poucos. Quando conto sobre a minha profissão, percebo que a reação das pessoas fala muito mais sobre elas do que sobre mim.
Hoje, aprendi a me posicionar com tranquilidade. Quando me perguntam se trabalho, respondo com verdade: sim, trabalho, sou presidente da Associação dos Profissionais do Sexo. Na maioria das vezes, o impacto dessa resposta é maior para quem escuta do que para mim. Mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que cada conversa parecia um teste, e cada revelação vinha acompanhada de um afastamento silencioso. Era como viver um pequeno luto diário — a sensação de ser aceita até o momento em que a verdade vinha à tona. Existe algo muito duro nisso. Profissões são aceitas, admiradas, romantizadas. Mas quando se fala em trabalho sexual, o olhar muda. O afeto recua. O julgamento se instala. E isso machuca. Talvez por já ter conhecido o preconceito muito cedo, ele nunca me paralisou. Cresci convivendo com ausências, rejeições e recomeços. O orfanato me ensinou a ser forte, mas também a não endurecer. A não devolver ao mundo a dor que recebi. Aprendi que eu não precisava me explicar para existir.
Hoje, não vivo para agradar. Vivo para evoluir, para cuidar da minha família e para honrar a mulher que me tornei. Não busco encaixes sociais nem validações externas. Busco consciência, presença e verdade. E isso me basta. Ainda assim, escolhi caminhar sem mágoas. Aprendi a perdoar porque entendi que, muitas vezes, o preconceito nasce da falta de contato, da falta de escuta, da falta de experiência com o diferente. Antes de reagir, eu respiro. Tento compreender. Nem todos tiveram a chance de conhecer outras realidades. É por isso que acredito tanto no poder do acolhimento. Enquanto o preconceito existir, é sinal de que ainda há diálogo a ser feito. E cada vez que ele se apresenta, reforça em mim a certeza de que estou no caminho certo. Quero que outras mulheres não precisem atravessar sozinhas aquilo que tantas de nós atravessaram.
Sigo com o coração aberto, sem rancor, com amor e firmeza. É assim que continuo: inteira, consciente e em paz com quem sou.
Flávia: Qual é a sensação de ser destaque da escola Porto da Pedra e ter seu nome no samba-enredo deles no Carnaval 2026 do Rio?
Ser destaque da Escola de Samba Porto da Pedra e ter o meu nome citado no samba-enredo de 2026 é uma emoção profunda, difícil de traduzir em palavras. Para mim, representa uma verdadeira honraria — não individual, mas coletiva. O que torna esse momento ainda mais especial é a forma como essa homenagem acontece. A coragem, a sensibilidade e o respeito com que o tema vem sendo tratado dentro da escola são algo que me tocam profundamente. Quero registrar minha gratidão ao Carnavalesco Mauro Quintaes pela coragem e ao presidente Fábio Montebello, a Fabrício Montebello, a Francine Montebello, a toda a família, que sempre nos acolheram com tanto cuidado. Esse acolhimento não vem apenas da direção, mas de toda a escola e da comunidade, que abraçaram o tema com dignidade e humanidade — exatamente como sempre sonhamos.
Quando soube que a Porto da Pedra traria essa temática para a avenida, fiz questão de entrar em contato com o carnavalesco Mauro Quintas. Me apresentei, contei quem eu era e de onde vinha. Dali nasceu não apenas um diálogo, mas uma grande amizade. Tenho por ele um carinho e um respeito imensos. Sua coragem em conduzir esse enredo com tanta verdade e sensibilidade é algo que merece ser celebrado.

Ao me ver homenageada, minha memória percorre cada mulher que acompanhei ao longo desses anos — aquelas que socorri, levei ao hospital, acompanhei a uma delegacia, acolhi em silêncio ou orientei com palavras. Cada conselho, cada gesto, cada noite difícil. Essa homenagem me faz lembrar que nenhuma dessas histórias foi em vão.
O desfile da Porto da Pedra simboliza uma virada de chave. É o mundo olhando para os profissionais do sexo com respeito. É a confirmação de que estamos sendo vistos e reconhecidos. O Coletivo das Divas segue sua caminhada, agora em uma nova fase com a APSEX-RIO, ampliando horizontes e fortalecendo a luta.
Esse momento não encerra um ciclo — ele inaugura outro. Um caminho que continua sendo trilhado com coragem, amor e compromisso. E eu sigo, profundamente grata, por fazer parte dessa história.
Flávia: Tem vontade de escrever um livro sobre a sua história e sobre as aventuras que teve com alguns clientes?
Sim, com certeza. Em 2026 esse livro será lançado. Na verdade, temos dois projetos literários em andamento.
O primeiro é um livro autobiográfico, que conta a minha trajetória, com foco na vivência de uma trabalhadora sexual depois dos 40 anos. Um livro que fala de amadurecimento, escolhas, desafios, superações e identidade. É a minha história sendo contada com verdade, responsabilidade e consciência social.
O segundo livro será voltado para crônicas — histórias e aventuras vividas ao longo de muitas noites de trabalho na rua. São experiências intensas, reais, não apenas minhas, mas também de outras trabalhadoras que cruzaram o meu caminho. É um livro de vivências, de aprendizados e de troca.
Mas não será apenas um livro de relatos. A proposta é ir além da narrativa. Cada história trará uma reflexão, uma análise minha hoje, com o olhar de quem amadureceu. Vamos falar sobre leis, direitos, deveres, limites, proteção e escolhas. O leitor não vai apenas ler uma história, vai dialogar com ela, entender o que poderia ter sido feito, como lidar melhor com determinadas situações e quais caminhos são possíveis.

Esse livro também marca um momento importante da minha vida. Vivi Castello é uma construção. Quando cheguei ao Rio, ainda como Viviane Soares de Souza, eu era conhecida como Carol Gaúcha. Com o tempo, nasce a Vivi Castello, junto com a minha trajetória como DJ e uma carreira de sucesso na noite.
Hoje, com o trabalho social, com a associação e com o amadurecimento pessoal, eu entendo que essa mulher cresce ainda mais — e se reconhece como Viviane Castello.
Esse livro vem para apresentar essa mulher por inteiro. Ele está chegando, e eu espero, de coração, que as pessoas gostem e se reconheçam em alguma parte dessa história.
Flávia: Que mensagem você gostaria de deixar para suas fãs e seguidoras da Maria Scarlet?
“Não tenha vergonha de quem você é. Quando uma mulher se reconhece, se empodera e ocupa o seu lugar com excelência, ela não muda só a própria vida — ela transforma o mundo.”
Profissões são aceitas, admiradas, romantizadas. Mas quando se fala em trabalho sexual, o olhar muda. O afeto recua. O julgamento se instala. E isso machuca.
Perfis do coletivo, Viviane e APESEX-RIO no Instagram são: @coletividivasdecopacabana, @vivicastelo.oficial e @apsexrio
Flávia Albuquerque para a coluna Fala Feminina
Encontre-a no Instagram @flavia.albuquerqueoficial










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