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Culpa

Ainda sentia os efeitos do álcool. Na mente, a tonteira.

A campainha tocou... queria dormir mais.

Quem será a essa hora? Seu corpo todo doía. Só queria dormir. Apagar.

Mas a ideia insistia em atormentar. O sonho, o medo. 

Ambos dedicados a uma palavra: traição.

TRA-I-ÇÃO. Que palavra repugnante!

Din-don! Novamente essa maldita campainha!

— Oi Marinalva, não lembrava que você vinha hoje. 

— Bom dia, seu Tomás. Sim, marcamos hoje porque preciso ir amanhã pra dona Lavínia.

Ainda isso. Compartilhar a mesma faxineira. Que ideia da Lavínia.

— Hoje o Severino está de ovo virado. Passei na portaria e ele nem me respondeu. Aquele pedaço de mal caminho...

Arg, que mulher chata! Que interesse eu tenho de saber sobre o porteiro. Me deixe em paz! Quero ficar aqui com a minha culpa. Sim, culpa! Culpa por ter traído a Lavínia, sua patroa. Éeeeee! Chocada? Sim, é isso mesmo. Bem aqui nesses lençóis que você vai trocar daqui a pouco. Que saco você interferir no meu sossego!

— Seu Tomás, é pra fazer o que pro almoço? Que bagunça nessa casa... Eita! Que broche é aquele ali perdido no sofá? É coisa de mulher... e não é de dona Lavínia não.

— Não, hoje não precisa.

— Oh, senhor Tomás... O senhor precisa se alimentar. Vi que tem uns copos sujos de bebida. Ninguém vive só de bebida não! Com quem será que esse homi tava, gente?

Só preciso que você vá embora, sua enxerida! Me deixa com os meus devaneios! Pensava nela segurando o copo de uísque que serviu na noite anterior. Olhava-o de canto de olho para logo em seguida apoiar com delicadeza três dedos da mão direita no queixo com o olhar infinito. Como não percebi a intenção? Mas ela não queria somente falar sobre a sua pesquisa de mestrado? Saber a opinião de seu antigo docente? E, de repente, partiu pra cima de mim? O que foi aquilo? Fiquei atordoado. Lembro de o coração palpitar. Mas o pior foi que eu acabei cedendo... aventura medíocre de gozo breve.

Seguiu para o sofá. Ajeitou a almofada de crochê bege. E, fingindo ler um livro, esticou as pernas. Quem sabe assim ela não me amola.

— Seu Tomás, o senhor pode ir pro quarto? Vou passar o aspirador. Já tá ele com a fuça no livro... tem mais que fazer não?  

— Claro!

Bruaca! Levantou-se. Ajeitou o roupão azul marinho e saiu cambaleante até o quarto. A perna tinha adormecido. Que criatura mais insuportável! Agora vou trancar essa porta. Assim a famigerada vai ter que me dar uma folga! Desagradável. Mas, ela não estava casada? Por que veio procurar um velho como eu? Eu já tenho a Lavínia e o meu receio sempre foi pela traição dela... Aí vem essa menina e resolve atacar o professor da época de faculdade? Eu que sempre fui a vitima... serei agora o vilão? Eu fiz isso mesmo? Liberei Lavínia com seu colar de pérolas, singularmente brilhantes, para se entregar ao Roberto?

— Seu Tomás, dona Lavínia está subindo!

Com as mãos geladas, suando, foi girar a maçaneta da porta.


FIM


Isabela Dias para a coluna Contos Literários

Encontre-a no Instagram @cuidadoterapeutico

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