top of page

O Inominado

Acordei com o sopro da brisa matinal. Na cama de lençóis frescos, vi se aproximar, através da janela, um bem-te-vi. O seu canto parecia se lamentar de uma perda, de um luto..., porém, o céu azul com poucas nuvens anunciava um belo dia. Logo em seguida, no entanto, o pássaro seguiu sua trajetória num deslocamento suave, já apaziguado.


Ainda com os dedos mergulhados nos cabelos, me espreguiçava longamente. Bocejava. A luz da manhã invadia meus olhos, quando, de repente, algo me chamou a atenção.... Inclinei-me para ver com mais detalhes. Estiquei o lençol branco e vi. Lá estava. Como um pequeno bordado ébano, um pelo humano, “claro”, pensei. Mas como? Quem esteve aqui? 


Estaria ainda sonhando? De olhos fechados continuava a ver. Olhava-o fixamente e aos poucos fui acompanhando sua proliferação. Via os pelos se multiplicarem. Intrigada, hesitei e me afastei com receio. Eram pelos de um torso humano. Foi surgindo uma vontade de tocá-lo, sentir a minha própria pele em contato com outra pele humana.


Do lençol emergiram cabelos cor de palha e, no rosto masculino, os olhos verdes exibiam um brilho intenso. Ou seriam azuis? Poderiam ser de anjo, imaginei. Olhos que me encaravam profundamente... Não, não eram olhos de anjo de cenário idílico, mas sim de um anjo severo, capaz de empunhar uma espada e decepar uma cabeça. Diante de mim, o olhar permanecia perscrutador, invasivo. Um olhar que tudo vê. Vê até a alma porque a dele parecia oca e sedenta. Sedenta de conexão? Procurava me esquivar, baixando a cabeça. Mas ele, o olhar, permanecia incólume, se apresentava no real, vinha sem mediação, desprovido de símbolos. 


— O que você quer? Como veio parar aqui? – perguntava fechando no peito a gola da camisola.


O olhar persecutório de julgamento parecia acompanhar uma intenção. A intenção de me recriminar, de me ameaçar e, quem sabe, de me humilhar...

Qual seria o seu propósito? Talvez a voracidade. Fazer de mim uma parte de si.


Antes mesmo que eu pudesse ouvir alguma resposta, fui percebendo minhas mãos se tornarem trêmulas e meu coração disparar ecoando como um tambor que alcançava as têmporas. Os músculos se retesavam reagindo contra uma espécie de onda provocada pelo choque elétrico do terror. O gosto metálico ia se fazendo presente, assim como o zumbido chegando em meus ouvidos. Os sons externos se tornavam cada vez mais distantes. O ar era escasso. Um nó na garganta foi se formando. Então, veio a paralisia, o congelamento. Eu não era mais capaz de movimentos. Apenas observava o olhar voraz e intrusivo do outro, deixando-me nua. Permanecia de modo involuntário. Atônita, desestruturada e ainda sem compreender o que estava acontecendo, o inominável disse: 


— Quero você. Quero te consumir. Devorar-te.


Sem palavras de recusa ou assentimento, ainda sentia o embalo tênue e superficial de minha respiração.


— Você existe para mim – a partir disso, uma risada alta de regozijo ecoou por todo o ambiente. — Hahahahaha! Para mim!


Não havia meios de reagir. Eu não estava escamoteando. Minha visão passou a ficar turva. A vitalidade de meu corpo foi se esvaindo. Até que, por fim, petrifiquei. Tornei-me estátua.... 


.. 


Sentindo uma fresta da claridade crepuscular banhando meus olhos, despertei com o canto do bem-te-vi. Olhei ao redor. Estava em meu quarto, sob os lençóis. Ao lado, se encontrava o meu gato peludo, o Dionísio. Procurei o pelo cor de ébano e não mais o encontrei. Ao mesmo tempo, surgiu uma impressão estranha. Era a conhecida sensação de estar sendo observada mais uma vez. E lá estavam eles. Os olhos. Os olhos de Dionísio.



Isabella Dias para a coluna Contos Literários

Encontre-a no Instagram: @cuidadoterapeutico

Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page