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Devir

Por Marianna Roman

Quando foi que você se sentiu livre pela última vez? Comigo aconteceu há poucos dias; foi na praia do Recreio dos Bandeirantes. Curiosamente o Posto 11 se chama Felicidade e acho que se eu parar pra ler o nome de cada posto vou acabar entendendo  porque dizem que do Leme ao Pontal não há nada igual. Talvez seja a energia, a conexão com os pés na areia – mesmo sem a caipirinha e água de coco e a cervejinha –, as ondas do mar batendo, aquele som de mar que é sempre uma conversa e às vezes a gente sequer presta atenção. Eu precisava daquela liberdade. Precisava bater aquele papo comigo mesma e com tudo o que meu coração vinha guardando.

Acho que, como todo escritor, comecei a pensar em meus personagens. Na verdade, esse é um ritual que faço quase todos os dias, especialmente nos fins de tarde, eu tenho uma relação antiga com ver o sol se pondo e gosto de me colocar pra pensar em todas as coisas que me tocam. E não são poucas. Então naquele dia na praia, já eram quatro e tal, me lembrei da música que Ana Carolina canta – “também tenho saudades, mas já são quatro e tal” – e pensei nas personagens femininas que escrevo, no que elas me ensinaram enquanto eu as moldava e cheguei à conclusão de que, no fim, elas que acabaram me moldando. 

Existem caminhos que percorremos que nunca pensamos percorrer. A vida segue seu próprio curso e nós aprendemos, nessa eterna busca por equilíbrio, a seguir com ela. É normal ser arrastado às vezes, quem nunca, né? Ainda mais quando nos caem sobre os ombros tantas cobranças que nós mesmos nos fazemos.

Quem nunca ouviu a famosa frase “para amar alguém, temos que primeiro amar a nós mesmas…” e ela é a mais pura VERDADE!

Quando foi que você se sentiu livre das suas próprias cobranças pela última vez? Deu tempo de perceber o quanto a vida também te presenteou e que, na maioria das vezes – eu poderia até arriscar dizer em todas –, as respostas para todas as suas perguntas esteve sempre diante ou dentro de você? Comigo aconteceu enquanto eu pensava em outro que também buscava as respostas. E enquanto eu esquecia a minha dor, o meu peso, os meus medos… para cuidar das dele, me peguei respondendo às minhas próprias perguntas. Amenizando meus próprios medos, acalmando meu próprio coração. Assim são os livros, os personagens, as histórias… é preciso sairmos, nos despirmos de nós mesmos para encontrarmos nossos próprios caminhos.

Só é uma pena que, no caso das mulheres, isso ainda esteja quase sempre atrelado a uma presença masculina. Veja bem, não há nada de errado em se descobrir no amor. Não há de errado em amar. Se encontrar em alguém, se entregar a alguém. Mas para que essa entrega seja completa é preciso que também aprendamos a nos entregarmos a nós mesmas. A busca pelo lado mais humano, pelo próprio caminho passa pelo entendimento de que esse um processo individual e intransferível. Que inclusive acontece no tempo de cada um. Se nesse meio tempo você se perder, não se condene, nem deixe que tentem te convencer de que sua busca é inútil, um drama desnecessário e que você precisa de um homem, beijar na boca, transar até cansar. A gente escuta bastante isso, né? Talvez seja por isso que a maioria dos personagens que eu crio são mulheres. As velhas e boas mulheres que se culpam pela busca, se forçam no meio de pensamentos retrógrados, que lutam contra os atrasos sociais e ainda precisam encontrar a si mesmas durante toda essa jornada que às vezes não nos dá um minuto de paz. Talvez seja por isso que quando leio um livro em que a personagem principal é mulher ou que me mostra uma personagem mulher em algum momento, me pergunto sobre os processos dela e se eles foram levados em conta nas tomadas de decisões e na existência dela naquela história. Porque quando alguém se despir de si mesmo para se ver através dela… talvez acabe se culpando mais e se entendendo menos.

E essa conversa me levou a outro canto; não nos espelhar na vida e nos processos alheios também é importante para que nos conheçamos melhor. O respeito pelo caminho do outro e pelo nosso próprio caminho; a vida já tem imposições demais para que o espelho, o exemplo, a admiração se tornem mais um peso a ser carregado. Então pensei na tal da liberdade… será mesmo que eu senti? O que será que eu de fato senti? Será mesmo que um dia vou saber a resposta? Nem sei se tenho mesmo que saber. Talvez liberdade seja isso; não saber de nada. Ouvir Ana Carolina, andar na praia, sentir o ar nos pulmões… e voltar. Para o que a rotina pede, para o que a vida cobra e depois… soltar.

Matéria de Marianna Roman para a coluna Empoderamento Feminino

Encontre-a no Instagram @mariannaromanoficial

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