Mulheres da guerra

Por que nos é estranho ver uma mulher na linha de frente daquele exército de um filme sobre guerra?


“Olha só, a líder do exército é uma mulher!”


Já ouvi essa fala em casa, na casa de algum vizinho ou numa televisão de bar. E nem foi um homem que começou. Foi uma mulher, em todos os casos. E em muitos casos, a mulher era eu. Às vezes nem é por preconceito, mas sim porque mulheres ainda não são vistas pela sociedade como figuras de liderança. E bom, isso infelizmente se aloja em nós como se fosse algo natural. Crescemos com essa ideia e acreditamos nela.


Assim como na vida real, os filmes trazem situações desafiadoras às mulheres. Situações em que elas precisam lidar com a falta de respeito para com elas, com o assédio de todos os tipos, com as piadinhas machistas e com o repúdio da figura feminina. Engraçado é observar que esses filmes se passam em épocas diferentes da nossa, em outro século e sob outros costumes, mas mesmo assim as situações desafiadoras, constrangedoras e dolorosas ainda ocorrem hoje. E se agora não são escancaradas como antigamente, são abafadas, ignoradas e tidas como bobagens.

“Cada mulher se sente forte a sua maneira. Com maquiagem mais pesada ou então mais discreta, com um vestido mais longo ou então mais curto.”

Acho curioso quando estou assistindo um filme na companhia de alguém e, ao nos depararmos com um comportamento machista ou misógino, o outro quase sempre comenta: “Que horror pensar que naquela época era realmente assim.” Mas e hoje? Hoje não é assim?


Que nome eu dou à situação que fez com que eu me enfiasse em um banheiro público durante um evento para tirar dos lábios o batom vermelho que estava usando e substituí-lo por outro de cor mais clara e “inocente” porque, segundo minhas amigas, eu estava “ousada demais” e algum homem poderia pensar que eu estava ali à procura de “segundas intenções”?


Parece que isso aconteceu no século XIX, ou dentro de algum filme de época. Mas foi em 2019, em um século que se ouve muito sobre “liberdade de escolha”. Só que a liberdade de escolha só faz sentido quando não somos julgadas por fazer uso dela. Caso contrário, é só mais um discurso da sociedade feito da boca pra fora.


E eu só queria me sentir mais forte. Cada mulher se sente forte a sua maneira. Com maquiagem mais pesada ou então mais discreta, com um vestido mais longo ou então mais curto. E eu me sentia forte com o batom vermelho. Não estava à procura de segundas intenções com ninguém, mas se estivesse, qual o problema?


Olhe só; eu cresci acostumada com a ideia de que homens lideram exércitos e não ao contrário. De que homens gritam alto, explodem de raiva e dormem com quem quiserem.

Principalmente nos filmes. Muitos reforçam isso. O protagonista é bonito, másculo e rude. Explode de raiva, protege a mocinha, dorme com três mulheres hoje e amanhã também. E é normal. Nenhuma crítica.

Você me dá licença para te convidar a imaginar o contrário?

Um filme onde a protagonista é a mulher. Jovem e bonita. Ou até mais velha e fora dos padrões impostos…


Uma mulher explosiva, que já salvou muitos (incluindo homens), que dorme com três hoje e amanhã também. Não é normal. Muitas críticas.

“É louca, descontrolada.”

É como se a mulher não pudesse ser líder de um exército, de uma empresa, de um time de futebol. É como se, ao agir semelhante ou igual à maioria dos homens, ela se tornasse automaticamente um exemplo de pessoa que não se deve seguir.

“Puta, alvoroçada.”


Ninguém diz:

“Olha, o líder do exército é um homem!”

Porque isso não é estranho. Isso é o “natural” e é assim que “deve ser.”

“Que absurdo, dorme com muitas mulheres, não vale nada.”


Ninguém diz isso. Sabe o que dizem?

“Esse é foda, pegador.”

E sobre a mulher?

“Dorme com tudo que é homem, é uma puta. Depois tá grávida e não sabe o porquê.”


É como se a mulher não pudesse ser líder de um exército, de uma empresa, de um time de futebol. É como se, ao agir semelhante ou igual à maioria dos homens, ela se tornasse automaticamente um exemplo de pessoa que não se deve seguir. É como se o batom vermelho às rotulasse como um objeto de pouco ou nenhum valor. É como se sair à noite fosse sinônimo de busca exclusiva por prazer sexual e não por diversão, por vontade de sentir livre.

“É como se o batom vermelho às rotulasse como um objeto de pouco ou nenhum valor”

Quem dera eu estivesse falando somente sobre os filmes que a gente assiste sozinho, com a família ou com os amigos…


Quem dera esse filme não fosse real e não se chamasse vida. Nesse, você pode ser o tipo de protagonista que quiser, a mais recatada ou a mais ousada, que ainda assim irão falar de você. Então seja exatamente o que faz seu coração bater com mais força.


A todas as mulheres que um dia se sentiram diminuídas ou que tiveram suas asas cortadas: sejam líderes dos seus próprios sonhos, metas e objetivos, sempre.


Matéria de Pâmela Mota