Nas entrelinhas relacionais

Um dia desses estava navegando pelo aplicativo queridinho da Geração Z, o TikTok, e me deparei com uma reflexão interessante proposta por uma escritora estadunidense chamada KC Davis, com o nome de usuário @domesticblisters. No curto vídeo de apenas um minuto, ela nos conta que aprendeu durante a faculdade numa aula sobre sexualidade humana o fato de que homens, na verdade, não gostam de mulheres. A partir daí, fiquei intrigada pelo vídeo.


De acordo com ela, seu professor disse que o jeito que a nossa sociedade socializa os meninos para “se tornarem homens” se dá completamente pelo ensinamento de “não ser como mulheres”. Por exemplo: não chore, seja homem; não seja fraco, seja homem; não seja sensível, seja homem. Essas características, que são associadas ao gênero feminino, são mostradas como negativas para eles durante todas suas vidas e como motivo de vergonha.


Ou seja, é praticamente impossível todas as características “femininas” serem ensinadas como “ruins” para homens e, no final das contas, esperarem que eles genuinamente gostem de mulheres. Ao mesmo tempo, são influenciados incansavelmente a enxergar sua atração por mulheres e sua capacidade de conquistá-las como símbolo de status e poder entre a comunidade masculina.


“Crescemos assistindo à filmes românticos e somos ensinadas que existem príncipes encantados enquanto o que existe é exatamente o oposto.”

Isso faz com que o homem veja a mulher apenas como objeto sexual e só goste dela para com esta finalidade. Nenhum atributo associado ao gênero feminino e como as mulheres cresceram e foram criadas para enxergar como o mundo é atraente para os homens, como forma de criar uma relação interpessoal minimamente profunda. Nesses pilares que nascem, crescem e são esculpidos a misoginia, o ódio ao feminino e tudo atribuído a ele.


No momento que esse vídeo acabou, tive a sensação de que deveria compartilhá-lo com o mundo. Foi como se KC tivesse desfeito um nó na minha garganta que estava preso lá por anos. Ela conseguiu expressar de forma tão clara algo que me tirava do sério a ponto de não conseguir racionalmente explicar. E estava tudo meticulosamente discorrido bem em frente aos meus olhos. Expresso aqui minha gratidão pelo compartilhamento dela sobre os ensinamentos que teve em sua aula.


A sociedade demoniza e menospreza absolutamente todas as características relativas à mulher há séculos.


Observo profundamente como homens conseguem criar amizades genuínas e duradouras entre si enquanto, entre homens, heterossexuais, no caso, e mulheres, sempre há um interesse implícito nas relações. Quase todas às vezes, por parte do homem. É como se indivíduos masculinos se aproximassem das mulheres simplesmente para conseguir o benefício sexual e, logo depois que conseguem, se afastam.


Às vezes me pergunto se esses homens realmente gostam de mulheres porque sinto que grande parte deles flerta conosco simplesmente para impressionar os amigos e por pressão externa. E, não me entenda mal, não estou vitimando-os. Sei muito bem, como mulher, que eles são um produto das próprias criações. A sociedade patriarcal e o machismo são imposições masculinas. É o famoso “feitiço contra o feiticeiro”: o que era simplesmente para beneficiá-los, a longo prazo, trouxe prejuízos.

Qualquer mulher que tenha desejo sexual por homens e que já flertou com algum já ouviu o famoso “não quero nada sério” repetitivamente. Por um tempo, fiquei me perguntando de onde vinha essa afirmação já que eu nunca deixei a entender o contrário. Concluí, portanto, de onde vem. Não é simplesmente uma vontade de não ter um compromisso, mas sim uma dificuldade masculina em encontrar atributos em mulheres que faça o homem se interessar nela além do seu corpo físico. Uma dificuldade em se conectar com a personalidade feminina. Traduzindo: eu quero você só para suprir minha libido e nada mais.


E é nessa que as mulheres saem como loucas, desesperadas, emocionadas, surtadas. Crescemos assistindo à filmes românticos e somos ensinadas que existem príncipes encantados enquanto o que existe é exatamente o oposto. A misoginia é sorrateira, discreta, velada. Subentendida, muitas vezes, como um problema pessoal na sua relação com o parceiro, mas, efetivamente, é um empecilho que grita ser social. Ela está nos pequenos detalhes, no afastamento, na ignorância, nas piadas, na distância. Ela preenche o espaço emocional de conexão que os homens simplesmente não conseguem completar com afeto.


Você com certeza já se perguntou como leu errado os sinais, como ele conseguiu se afastar tão friamente e sem nenhum remorso, e a resposta é que ele nunca se aproximou.

É raro um homem conseguir se aproximar emocionalmente de uma mulher e realmente gostar e valorizar suas características pessoais femininas. Em grande parte dos casos, ele se mantém na relação enquanto o beneficia. Para os amigos, diz que sua parceira é frágil, sensível, dramática.


São incontáveis as vezes em que vi a instituição de um casamento ser tratada pelos homens como uma prisão. Nos ensaios de foto conjugais, imagens da noiva algemando o parceiro. Até no topo do bolo já vi o marido algemado. A despedida de solteiro? Muitas vezes vista como “a última noite livre do homem”. É como se ele estivesse fechando um contrato para passar o resto da sua vida com uma pessoa que ele odeia. E com qualquer mulher, será assim. Isso só não acontece em casais homoafetivos, ou se, por algum acaso, um homem heterossexual resolvesse se casar com um amigo, o que eu acho pouco provável.


Trago uma má notícia: todos os homens são assim. Alguns (muito) mais, outros menos. É inevitável, pois todos nós crescemos na mesma sociedade. Contudo, venho uma frase para ficar de olho se ouvir de algum pretendente: “minha ex é louca”. Pronto. Já é o pacote entregue em suas mãos de: não estou assumindo minha responsabilidade pela minha parte que causou o fim do meu relacionamento, portanto vou colocar essa culpa na mulher usando o bom e velho método de gaslighting. Em vista disso, não se culpe. Não se culpe por não ter sido “interessante” o suficiente, “divertida” o suficiente, “equilibrada” (apática) o suficiente. Nem se você estivesse banhada em ouro, um homem que tem esses ideais enraizados em seu subconsciente, iria te querer. Constantemente, nem eles notam a fonte do problema. O lado bom é que já existe uma certa conscientização sobre a questão, progredindo para uma mudança da forma de pensamento. De resto, recomendo fortemente terapia para aqueles mal resolvidos que não conseguem formar conexões verdadeiramente significativas com mulheres.


Matéria de Giovana Carvalho para a coluna Empoderamento Feminino

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