Oração de Severina
- 2 de abr.
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É sabido que retardada é quem não sabe rir e chorar na hora certa. Talvez eu fosse mesmo retardada já que ria na hora errada. Foi daí que começaram a falar nas minhas costas e a caçoar de mim. Quando via, não tinha um serzinho do meu lado e eu ficava sozinha, como uma ilha. Sem unzinho sequer pra conversar comigo. Nem a macheira que ficava por lá. Eu fiquei com uma tristeza só. Olhava e não achava onde se escondiam? Por que ninguém me via?
Dava uma dor no peito, não aguentava e caía no choro.
Isso era lá no trabalho. Na agência de limpeza da cidade de São Longuinho.
No início, todo mundo era bonzinho e eu ria das piadas, mas foi chegando o tempo em que percebi que a maior diversão era falar mal de quem não estava nas vistas. E todo mundo enrolava o trabalho. Um empurrava o serviço pro outro. Nesse tempo, eu tinha um chefe caolho que só cruz-credo. Parecia o coisa ruim. O nome dele era um tanto engraçado e a gente chamava de Terra. Reclamava quando eu ia ao banheiro. Dizia que eu demorava muito. Mas ele mesmo só ficava sentado, olhando revista e empurrando o trabalho pra gente. Logo depois foi pra cidade do pé junto.
Fico querendo alguém para me abraçar. Sentir o calorzinho que sai do corpo da pessoa. O peito ficar quentinho. Tem tempo que não... aqui dentro anda meio oco. Parece que nem pedra de gelo. Sei lá. Por que fui pensar nessas coisas? Só pra ficar com os olhos ardendo? “Tem nada não”, minha mãe dizia desde criança. “É só fingir que não tá sentindo nada que passa”. Era assim quando meu irmão me batia e dizia que eu é que tinha pego a vassoura e dado uma lapada nele. Ela acreditava em quem? Me exprimia todinha em explicação, mas não adiantava não. Então ela dizia aquilo de fingir e ele ficava rindo por trás.
Mas não dava pra fingir quando Milagre foi morto. O cãozinho (descanse em paz!) que não arredava do pé da minha vó toda vez que ela vinha da missa pra casa. Ele parecia ter sido enxotado de algum lugar e buscava refúgio junto a vó. Até que um dia ela cedeu e acolheu o bichinho. Ele levou uma alegria que só lá pra casa. Ficava correndo de um lado pro outro igual piloto de Fórmula 1 e a gente caia na gargalhada. Então, como gratidão a Deus e por tirar nossa tristeza, foi dado esse nome pra ele. Lembro de um vizinho que reclamava dos latidos e um dia bem que ele parou mesmo de latir. Foi uma vez quando Milagre passou o dia todo fora. Chegou a tardinha todo esquisito e bambeante, mole das pernas e cuspindo sangue. A gente achou esquisito e não sabia o que fazer. Depois a vó encontrou ele emborcado. Juro até hoje que foi coisa do véio. Queria fazer de conta que não sentia todo o aperreio me rasgando por dentro pra poder cuidar da minha avó. É igualzinho o sentir de agora. Um apertamento danado que me sufoca o peito.
Cê entende as minhas palavras? Nem sempre entendem o que digo. Acho que falo sem ordem. Sem claridade. Dizem que Você sabe de tudo. Então não se precisa muito de palavras, né? Eu só peço pra Te encontrar logo. Não tá bom por aqui não. Já fiz de tudo um pouquinho mas não tenho serventia. Me contaram que aí só é frescor. E a gente vive sorrindo. Chega desse calorzão. Como faço para chegar logo? Me conta? Vou ficar bem acordada, só pra ouvir o jeitinho de fazer meu corpo se apagar aqui e a alma se alumiar aí.
Isabella Dias para a coluna Contos Literários
Encontre-a no Instagram: @cuidadoterapeutico




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